Make your own free website on Tripod.com



I

Minha alma deu para me perseguir. Fica dizendo que é a rainha Vitória, que eu devia liberá-la, que não gostou do meu cabelo tingido, que meu corpo não combina com o seu jeito, que ando trabalhando demais e dormindo de menos (na certa quer dar um passeio na minha ausência).

Propus-lhe então uma troca de almas. Que achasse outra mais apropriada ao meu temperamento. Impossível. Somos indissolúveis. Além do que eu estava invadindo a seara dela quando falava em temperamento. Pois bem. Que se dane. Uma de nós vai ter que desistir primeiro. Com certeza não serei eu. Papai sempre disse que mulheres bonitas não deviam ter alma.
                                                                                                  


II
 

...........................................................
disse eu ao amigo que viera de bicicleta
quando isso não tinha a mínima importância
mas ele foi embora logo.

tive de gritar para saber qual era o branco
qual era o tinto
situação embaraçosa que prendeu a atenção de todos
mas logo foi esquecido.  

quanto mais o tempo demorava a passar
mais a conversa ficava animada
e como se tudo quisesse ao mesmo tempo
comecei a me desesperar.
ninguém sairia dali tão cedo
nem mesmo um ângulo de imbecil.  

fui até o quarto
a pretexto de um desalinho
na segunda gaveta há uma magnum
                        há uma magnum na segunda gaveta                     
 

que se projetou das sombras de uns saquinhos de chá sobre os outros. trago-os sempre comigo para o caso de alguma visita sentir náuseas. sinto uma enorme pressão na cabeça. de fato é porque estou escrevendo agora. carrego a magnum numa rápida administração e o que não sei preciso aprender de vez. vou até o espelho e miro nos olhos da gente. e aí começo a suar embora a minha roupa seja a mais leve possível. o verão exige um trabalho minucioso de quem quer sempre manter tudo limpo. ouço teclas batendo mas eu já disse que prefiro caneta e papel. escreve aí seu merda. sim vou arrebentar os miolos de todos lá embaixo. a começar pelos dentes. os dentes. amanhã terei tempo ainda de corrigir umas provas. não consigo revisar manuscritos com a casa assim tão cheia de gente. desço correndo a escada sem me apoiar no corrimão que está molhado de não sei o quê. os convidados parecem ter aumentado de proporção ou será que foi a cozinheira que preparou essa surpresa para mim? passo por ela e cochicho que não foi tudo um desperdício afinal. dou uma gargalhada e a magnum sacode sem derramar uma gota do copo. atravesso a sala como quem não consegue ler até o fim certos temas tratados num romance. e olhe que eu nunca atrasei um capítulo. sempre consegui dar um fecho na hora exata. embora não saiba exatamente o que esse ímpeto significa. lembro-me de que sentia algo parecido aos vinte anos de idade quando me gripava com mais freqüência. acompanhei a seqüência da caneta e explodi a primeira boca em duas linhas. sangue e miolos grudaram no teto. magnífico escritor inglês! os amigos da cabeça começaram a gritar em torno do que sobrou dela. não se podia dizer que não fosse uma autobiografia. não, que absurdo, quero que fiquem, ainda é cedo. o melhor está por vir. afinal hoje é a primeira vez que faço poesia. sempre preferi lidar com prosa. mas nem está tão mal assim. vejam. posso alterar duas palavras ou três. compor um ritmo mais original. é fácil dizer que não se trata de um grande poema mas se todos se debruçassem sobre a mesa veriam que não passa de uma visão de mundo. escrevo também para me divertir. e o faço com o máximo rigor. arrebento agora o peito de um outro convidado que está de pé junto à minha estante. droga, não consigo fazê-lo sem sujar umas não sei quantas lombadas. daqui não posso ler que títulos foram atingidos. nunca havia reparado como sangrar é anti-higiênico. o nervosismo momentâneo me fez disparar mais vezes seguidas sem me preocupar com o estilo dos disparos. sempre fui dada a extravagâncias mas aquilo poderia me prejudicar a expressão. a exatitude. sim. a exatitude. a verdade é que ninguém tentou me impedir de nada. eu estava livre para criar. não é assim que a literatura prossegue? também é certo que os leitores estão ficando cada vez mais treinados, na mesma medida em que os cães vão aprendendo a atravessar as ruas agitadas de uma cidade grande. já me disseram que aos meus textos falta unidade. mas agora com essa magnum vejo que não é bem assim. ela veio para facilitar o meu trabalho. ela não permitiria da minha parte uma mera representação de imagens ou superposição de idéias. não. de jeito nenhum. seria trair a mim e aos meus leitores. e estes são vocês. estão aqui. e eu os busco um a um. como uma harmonia de vogais. como uma língua que procura sua mãe. penso que algum dia, num futuro bem distante, algum explorador venha a descobrir que, próximo à costa do que se costumava chamar América do Sul, alguém ou alguma civilização fazia suas inscrições à bala como forma de comunicação. uma forma de escrita sem dúvida caída hoje no esquecimento.

    Nem todo poço é sem fundo. Arrisque-se.


FastCounter by bCentral